Da ideia à ideologia
17/10/2026
A demanda por segurança é justa. O risco começa quando uma ideia deixa de aceitar o fato.
Li cinco textos sobre a volta da direita. BBC, Veja, O Globo, g1 e um artigo do professor André Borges, da UnB. Eles dizem quase a mesma coisa e quase nenhum fala de ideia.
Falam de medo, de inflação, de gente cansada de quem manda.
Neste primeiro turno, trinta e três milhões de brasileiros nem saíram de casa para votar. Desde 1998 não se via tanto. A Economist enviou gente às portas das seções e trouxe a frase de um rapaz no Rio: “é escolher o menos pior”. A revista concluiu que o voto foi menos entusiasmo por quem chega do que rejeição a quem está.
Quem perdeu um filho num assalto quer polícia na esquina, teoria nenhuma. Na Bolívia os preços subiram quase 25 % em um ano, e ninguém ali precisou ler doutrina para votar contra o governo. O povo está votando contra quem governa, seja quem for. Das últimas trinta eleições presidenciais na América Latina, o governo perdeu vinte e duas. A direita levou vantagem porque estava de fora e porque fala de segurança de um jeito que qualquer um entende.
Isso é demanda, e demanda justa. Chamar esse eleitor de burro ou de manipulado é o primeiro erro de quem perde. Costuma ser também o caminho mais curto para perder outra vez.
E a demanda não nasceu do nada. A direita voltou também porque o outro lado errou. Na Bolívia o MAS se dividiu entre Evo e Arce; Evo já queria ficar depois de perder um referendo, e a economia fez o resto. A professora Regiane Bressan, da Unifesp, lembra que os governos de esquerda não deram conta da pobreza e da desigualdade que alimentam a violência. A crença de que justiça social resolveria a segurança sozinha foi aplicada sem olhar muito para o chão. Quem esperou do lado de lá também foi governado por uma ideia que não quis saber do fato.
Mas política vive de transformar demanda em alguma coisa. Em quê?
Freud escreveu, em 1921, que uma multidão surge quando todos colocam a mesma figura no lugar do próprio ideal e, assim, passam a se reconhecer no outro. Quase sempre essa figura é um chefe, embora ele admita que pode ser apenas uma ideia. Essa ideia pode ser de ódio: o ódio comum a alguém ou a uma instituição mantém o grupo unido tanto quanto a devoção.
O professor Borges encontrou esse padrão na nova direita brasileira sem precisar recorrer a Freud. A ala que ele chama de antipolítica se reconhece menos pelo que propõe e mais pelo que rejeita: o PT e a velha política. Tem inimigo. Tem programa, pouco.
Antes que alguém me acuse de escolher lado, Freud tirou esse modelo da Igreja e do Exército e, anos depois, aplicou‑o ao comunismo soviético com a mesma mão. A esquerda também já viveu de inimigo: o imperialismo, a elite. Serve para os dois lados da cerca.
Quem me ajudou a ver o perigo foi Hannah Arendt. Judia, fugiu dos nazistas e passou a vida tentando entender como aquilo foi possível. Para ela, ideologia é pegar uma ideia só e tirar conclusões dela até o fim, mesmo quando a realidade diz o contrário. Se o fato não bate com a premissa, o fato perde.
Uma ideia a gente discute e, se não funciona, larga no meio do caminho. A ideologia ninguém larga, porque deixou de depender do que acontece lá fora.
Querer mais segurança é uma ideia. Dizer que bandido não é gente e que quem defende direito de preso é cúmplice já é outra coisa. Chamar todo policial de carrasco e chamar todo mundo que pede ordem de fascista é a mesma coisa com o sinal trocado. Arendt chamou isso de inimigo objetivo: a pessoa vira inimiga pelo que ela é, segundo a premissa, e não pelo que fez.
Bukele, em El Salvador, virou modelo para o meio do continente. A Anistia Internacional contou pelo menos 470 mortos nas prisões do regime de exceção. Em junho, o Datafolha mostrou que 59 % dos brasileiros concordam em tratar o PCC e o CV como terroristas. Eu entendo. Quem vive cercado entende. A mesma pesquisa mostrou que três em cada quatro não aceitam americano agindo aqui sem autorização do governo. O povo quer firmeza e quer regra. O problema começa quando alguém resolve que dá para ter uma sem a outra e aceita uma categoria de gente fora da lei, sem processo. Arendt estudou os apátridas e viu que o primeiro direito é pertencer a um lugar onde se tem direitos. Perdeu esse direito, perdeu o resto. E a lista de quem fica de fora costuma crescer.
Tem também a verdade. Arendt escreveu que o súdito perfeito de um regime total é aquele que já não separa fato de invenção. A BBC registra que a nova direita se distingue da antiga pelo uso eficaz das redes. Rede social não inventou a mentira, mas colocou a mentira para correr mais rápido que qualquer desmentido, e ninguém recusou a carona. Sem um punhado de fatos aceitos por todo mundo, ninguém conversa. Só torce.
Cartório faz isso há séculos sem ninguém reparar: pega uma afirmação e transforma em fato que vale para os dois lados. Certidão não tem partido.
Marta Lagos, que dirige o Latinobarómetro, avisa que é erro pensar que a direita veio para ficar. Se não segurar o crime, cai como a esquerda caiu por não acabar com a pobreza. Guillermo O’Donnell, o argentino que passou a vida estudando as nossas democracias, dizia que a eleição serve exatamente para isso: castigar quem não entregou. Eu acho esse vai‑e‑vem saudável, desde que cada lado aceite que o outro pode voltar.
O perigo está ali. Enquanto a direita e a esquerda brigam por ideias, por mais feia que seja a campanha, a democracia continua de pé. Quando um dos lados transforma a sua ideia numa verdade que não aceita fatos contrários, o adversário vira inimigo e a força ocupa o lugar da instituição. Arendt dizia que a violência aparece onde o poder está desaparecendo. Braço forte, para ela, era sintoma de fraqueza.
Ela acompanhou o julgamento de Eichmann em Jerusalém e descreveu um funcionário que deixara de pensar no que fazia. Anos depois, a filósofa alemã Bettina Stangneth leu as mil páginas que ele escreveu na Argentina e mostrou um homem convicto, que encenou o burocrata para salvar a própria pele. A tese de Arendt foi contestada. A advertência ficou. Nenhum regime tira direito de ninguém sozinho. Precisa de policial, de servidor, de juiz. De registrador também. Faz trinta e sete anos que eu assino papéis, e sei como é fácil assinar sem perguntar.
Contra a ideologia, Arendt tinha um remédio só: pensar. Colocar cada ideia diante do que acontece e abandonar a que não aguentar.
A direita voltou. Um dia vai embora, como a esquerda foi. Que continue podendo.
