O ANEL - Rainey Barbosa Alves Marinho
22/08/2026Um amigo me levou pra ver a mata que sobrou atrás da casa dele. Não é mata grande. É o que ficou de pé quando lotearam o resto: uns dois hectares de árvore velha que ninguém teve coragem de derrubar. A gente entrou devagar, porque ali dentro é sempre mais escuro e mais fresco do que a gente espera.
Foi ele quem me mostrou a marca. Uma faixa clara em volta de um tronco, na altura da cintura, com uns quatro dedos de largura. Dava pra ver onde a lâmina entrou e onde saiu. A casca em volta já estava se enrolando pra dentro, tentando fechar.
Perguntei se a árvore ia morrer. Disse que sim. Perguntei quando. Disse que não sabe. Pode ser esse ano, pode ser o ano que vem.
E é isso que me pegou.
Porque ninguém derrubou aquela árvore. Ninguém encostou machado nela. Arrancaram uma tira de casca em volta do tronco inteiro, coisa de meia hora de serviço, e foram embora. A copa continua verde lá em cima. Quem passar hoje não vê nada de errado. Mas o caminho por onde o alimento desce das folhas pra raiz foi cortado, e a raiz vai definhando embaixo da terra, sem ninguém ver, enquanto a árvore ainda faz sombra.
Ela morre de fome com as folhas cheias de sol.
E quem passou a lâmina? Ninguém sabe. Ninguém viu. Não tem serragem no chão, não tem barulho, não tem testemunha. Meia hora de serviço e o sujeito já estava longe quando a copa começou a ralear.
Meu amigo falou uma coisa que eu não esperava. Disse que árvore anelada às vezes carrega de fruta. Que o alimento que ia descer pra raiz fica preso ali em cima, empoçado acima do corte, e a copa gasta aquilo tudo de uma vez: galho novo, folha nova, fruta como nunca deu. Quem vê de longe acha que a árvore está no melhor momento da vida dela. Está gastando o que não vai repor.
Andei um pouco mais e ele me mostrou o contrário disso. Um tronco com uma cicatriz velha de fogo, já engolida pela madeira nova. Aquela árvore apanhou de um incêndio há não sei quantos anos, perdeu casca, perdeu galho, e cresceu por cima. Se serrarem o tronco, a queimadura está lá dentro, num anel, com o ano marcado. A árvore não apagou nada. Cresceu em volta.
Fiquei ruminando essa diferença o caminho todo de volta.
Uma árvore não esconde ano ruim. Ela escreve. Ano de seca deixa um anel fino, e quem entende lê aquilo como quem lê livro: sabe em que ano choveu, em que ano faltou, em que ano pegou fogo. O que ficou escrito ali não aumenta nunca mais. Não tem como voltar dez anos depois e dizer que a seca foi maior do que foi.
O que mata não é a cicatriz. É a faixa de casca que alguém tira devagar, em volta, e vai embora antes de a copa secar.
E tem a clareira.
Quando uma árvore grande cai, a mata não fica com um buraco. Fica desprotegida. As que estavam em volta cresceram a vida inteira debaixo daquela copa. Cresceram altas e finas, porque não precisaram de tronco grosso pra segurar vento que não chegava nelas. Aí o vento entra pela clareira e encontra vizinho despreparado. Não é raro cair mais gente depois. Às vezes cai mais do que caiu na primeira vez.
Ninguém pensa nisso na hora de derrubar. Pensa na árvore.
E na clareira quem chega primeiro é sempre o mesmo tipo: planta de sol forte, que sobe em dois anos e se mostra. Madeira mole. Não serve pra obra e não dura. Vai ocupando o vazio enquanto o que era mata leva quarenta anos pra voltar. Se voltar.
Meu amigo me mostrou uma árvore torta, quase deitada, saindo debaixo de outra maior. Achei feia. Ele riu e disse que ela não escolheu ser torta. Nasceu ali, no escuro, e passou a vida se entortando atrás do pouco de luz que entrava. Endireitar era morrer.
Isso me calou.
Porque a gente olha um tronco torto e acha que ali houve vontade. Quase nunca houve. Houve pouca luz num ano decisivo, e uma planta fazendo o que dava pra fazer. Não digo que isso endireite tronco nenhum. Digo que quem anda em mata sabe que a maior parte das árvores tortas apanhou antes de entortar.
Embaixo da árvore anelada tinha muda. Um punhado delas, na sombra dela, dependendo daquela copa pra não torrar no sol de meio-dia. Não fizeram nada. Não estavam ali quando a lâmina passou. Quando a copa secar, secam junto. E isso não entra na conta de ninguém, porque conta de mata ninguém faz. Fica pro chão resolver.
Voltando pra casa, eu me lembrei de uma coisa que não me deixa passar recibo de inocência.
Eu já anelei uma árvore. Era um pé de carambola, no quintal, faz muitos anos. Achei que estava podando. Tirei casca demais, em volta, com uma foice, sem saber que aquilo era exatamente o jeito de matar sem parecer que matou.
E o pé cresceu.
Cresceu depois daquilo. Deu galho novo, deu fruta como não vinha dando. Eu cheguei a achar que tinha feito um bom serviço. Cheguei a contar em casa que tinha feito, e ninguém em casa discordou. Secou dois anos depois e eu nunca liguei uma coisa à outra. Botei na conta da terra, do sol, de praga, de qualquer coisa que não fosse a foice. Só entendi agora, com um amigo apontando pra faixa clara num tronco que não era meu.
É esse o problema da coisa. Quem anela quase nunca sabe que anelou. E o pior é quando a árvore responde bem: aí ninguém procura culpa nenhuma, porque não parece que houve dano. Parece que houve capricho.
Mas também tem o outro, o que sabe. O que vai com a lâmina e a medida certa e sai antes. A árvore não sabe qual dos dois foi. Pra ela é a mesma fome. E a madeira guarda o corte do mesmo jeito, com a mesma largura, no mesmo ano. Não guarda o que ia na cabeça de quem cortou.
A mata não guarda mágoa. Também não perdoa, que não é assunto dela. Ela só vai escrevendo, ano a ano, e cobrindo o que escreveu com madeira nova, até aquilo estar tão fundo no tronco que ninguém vê mais.
Daqui a dez anos, quem serrar aquele tronco vai encontrar o ano ruim marcado, exato, com data. Vai ver a largura do corte. Vai ver que foi em volta inteira, que não foi vento, não foi praga. Que passou lâmina.
O que não vai ver é a mão.
Se sabia o que estava fazendo, se achou que era poda, se tinha alguém do lado dizendo que era assim mesmo que se fazia. Isso o tronco não tem onde escrever. Quem serrar vai ficar sozinho com o anel, e vai ter que decidir o que ele conta. É nessa hora que a gente erra outra vez. Olha a marca e bota uma mão nela.
Eu sei porque botei a minha no lugar errado dois anos seguidos. Na terra, no sol, na praga.
A lâmina passou. Isso está escrito.
O resto é quem lê.
Rainey Barbosa Alves Marinho é registrador e tabelião em Maceió/AL, presidente da Anoreg/AL, do ON-RTDPJ e do IRTDPJBrasil. Membro da Academia Maceioense de Letras e da Academia Alagoana de Cultura.
